Camila Fortunato fala sobre a necessidade de acabar com o capacitismo

Em entrevista, a atleta fala do Dia Nacional do Deficiente Visual e a inclusão em Guararema

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No último domingo, 13, foi comemorado o Dia Nacional do Deficiente Visual, data que visa conscientizar a população contra o preconceito sofrido por pessoas cegas. Com o objetivo de auxiliar na promoção deste acontecimento e celebrar a população guararemense, conversamos com Camila Fortunato, que nos fala sobre suas conquistas no esporte paraolímpico. Sobre as pessoas que tem a agradecer, além do marido, ela diz: “atualmente minha técnica é a Eliana Borrego e outras pessoas que também me ajudam e que eu gostaria de agradecer são: Lucas Garcia que é meu guia na corrida, minha irmã Karine Fortunato, minha mãe Nilce Fortunato e o Vinicius Bife, que é o meu outro apoio técnico. Um grande sonho é ir para uma seleção, se eu chegar é um mérito meu, mas sei que é difícil, no entanto, a minha deficiência não é empecilho para nada”. Confira como foi a entrevista:

Camila nos conte um pouco da sua história, você nasceu cega?

“Eu não nasci cega, perdi a visão com 17 anos devido ao diabete, que eu tenho desde os cinco anos de idade”.

Como foi sua infância em Guararema?

“Com relação a minha infância, como fui nascida e criada em Guararema, a cidade para mim é maravilhosa, principalmente para quem tem filhos e para criar filhos. O estudo na cidade, desde o parquinho até o colegial é muito bom, eu vivi isso em Guararema, então para mim, da infância até agora, a cidade é maravilhosa”.

Acredita que Guararema é uma cidade inclusiva?

“Na área da inclusão, o mercado de trabalho deixa um pouco a desejar, são poucos setores e empresas que contratam pessoas deficientes, pelo menos pelo o que eu sei. Com relação a cursos, eu já fiz dois na escola profissionalizante, promovidos pelo Via Rápida, nos quais a Prefeitura cedeu o espaço, mas eu acho que deveriam ter mais cursos para deficientes, não só visuais, mas no geral. Já no esporte eles até tentam, tem muitos profissionais ótimos na área do esporte dentro da Prefeitura, conheço vários, mas assim, eles buscam atletas fora, tanto que faz doze ou trezes anos que comecei no esporte em Mogi das Cruzes e atualmente estou em Jacareí. Já tentamos, tanto eu, quanto a Prefeitura, competir por Guararema e a cidade tem estrutura para adaptar o treinamento aos deficientes, o campo é um lugar ótimo para atletismo e o clube tem uma piscina semiolímpica que é ótima para natação, só que essas adaptações não foram feitas e não tem profissionais adequados para trabalhar com isso. É claro que eles nos levam, eles participam do esporte com os deficientes, me ajudaram bastante e quando eu precisei viajar eu agradeço muito a eles por terem me ajudado a custear as duas viagens que eu fiz para fora, eu levei o nome de Guararema e da cidade que estava treinando, sei que eles tentam, mas que também é muito complicado”.

E como descobriu a natação?

“Assim que eu perdi a visão, um casal de amigos nossos acharam uma associação de deficientes visuais em Mogi das Cruzes e me levaram para que eu pudesse conhecer e lá me falaram sobre cursos e também sobre o esporte. Lá eu fiz informática, orientação em mobilidade e a natação que conheci através deles, quando me levaram para o Clube Náutico, comecei a praticar no espaço e hoje estou em Jacareí, onde sigo com a natação e também faço atletismo”.

Quais são suas maiores conquistas na área?

“O esporte está sendo essencial e ótimo para minha saúde, para que eu possa conhecer pessoas novas e novos lugares. Desde quando comecei a competir, quando tinha apenas dois meses de treino, minha ex-treinadora me mostrou as técnicas da natação e depois disso, fui para uma competição em São Caetano do Sul, e já nas duas primeiras provas que fiz (50 metros livres e 50 metros costas) consegui uma medalha de prata e uma de bronze, de lá para cá, eu sempre subo no pódio. Em doze anos que tenho de esporte, já fiquei algumas vezes no melhor tempo do Brasil, que é na competição do Comitê Paraolímpico Brasileiro. A gente se desdobra ao máximo para conseguir essas conquistas, mas é difícil, temos que trabalhar muito o nosso psicológico, controlar o emocional e no meu caso a diabete junto”.

No esporte, quais são seus principais desafios?

“Um dos principais desafios do esporte é ter um bom patrocínio, pois não é fácil, e também ter uma estrutura boa para treino”.

Em relação ao Dia do Deficiente Visual, para você, qual a importância da data?

“Acho muito importante as pessoas saberem à respeito da vida de um deficiente visual, porque o que se nota por aí é as pessoas tratando deficientes como se eles não fossem capazes, acham que somos ‘pobres coitados’. Então eu acho interessante essa data do deficiente visual para que nós possamos mostrar o nosso cotidiano e do que somos capaz para as pessoas entenderem que você só perdeu ou nasceu sem a visão, mas que isso não nos impede de casar, de ter filhos ou uma vida social como todo mundo”.