Meio Ambiente, o ranço da vez

Já repararam como é fácil (e cômodo) cairmos nas valas de um dualismo? Como estamos sempre tendendo a optar entre apenas duas opções? Entre “certo x errado”; céu x inferno; esquerda x direita; gosto x não gosto, e por aí afora...

Tenho comigo que é muito mais fácil ser esse “disjuntor ambulante” do que refletir sobre a complexidade das coisas, se aprofundando sobre os temas importantes ou até mesmo os mais triviais. Poderia divagar e dizer que isso faz parte de uma imaturidade ou até incapacidade intelectual, mas vou chutar que é só preguiça das pessoas mesmo.

É antigo o “dualismo” que opõe o meio ambiente ao progresso. E, há algum tempo, vejo que muitos discursos têm sido feitos por alguns grupos, algumas mídias “especializadas”, alguns líderes, opondo o Meio Ambiente à Agricultura. Bizarro!

Quando aprendemos os conceitos de Educação Ambiental e do cerne da história do movimento ambientalista, um dos principais preceitos é que tudo e todos nesse planeta fazem parte de um todo, de uma mesma teia, que liga tudo e todos, não havendo, assim, nada fora desse contexto. Logicamente o movimento ambientalista, que teve seu início visível ao mundo na década de 70, sempre se opôs ao que adoece o planeta Terra e seus habitantes (e mais algumas “coisinhas” que posso divagar em outro momento). E me espanta que pessoas, que se consideram ambientalistas, entrem nessa dualidade, tomando a Agricultura, às vezes interpretada como agronegócio, como inimiga.

Do meu ponto de vista devemos nos opor pontualmente ao que consideramos ou discrepante ou nocivo ao coletivo. Quanto ao agronegócio, por exemplo, devemos nos opor ao uso indiscriminado de agrotóxicos. Devemos discutir e participar de uma transição para a agricultura orgânica, que é inegavelmente mais saudável e sustentável para o solo e para as pessoas. Deveríamos ter equilíbrio ao decidir nos opor a algo. Deveríamos considerar todos os fatores possíveis antes de emitir pareceres, que podem ser como uma declaração de guerra, chocando grupos e pensamentos. Deveríamos ter ciência, entre outras coisas, que muitas pessoas se encaixam em determinados setores e que nem todas compactuam com tudo aquilo que entendemos ser “errado” naquele todo. Devemos entender que muitas pessoas não têm o conhecimento necessário ou a percepção para pensar em sustentabilidade, ou seja, na permanência saudável das gerações que estão por vir.

Existe outra coisa que une as pessoas numa direção, que é a ideia de um inimigo comum. Isso é muito usual para unir as pessoas em torno de uma ideia ou até de um candidato, criando, com o medo, a ideia de que alguém quer nos destruir. Assim ficamos mais juntinhos para nos defender.

No caso recente do óleo que invadiu a costa do Nordeste, uma das primeiras notícias que tivemos é que o óleo teria como origem a Venezuela. Coincidentemente a Venezuela é um dos “inimigos do estado” e muitas pessoas replicaram sem filtros a hipótese que o país vizinho lançara, então, um ataque ao Brasil, associando desta forma o crime à “esquerda”. O fato de o óleo ter como origem a Venezuela (foi comprado naquele país) não quer dizer que o país foi o responsável pelo crime. Um navio de bandeira grega e de propriedade de uma empresa grega foi apontado como o provável culpado pelo crime. E isso também não quer dizer que a Grécia nos atacou, cáspite! Isso prova o quanto é pequeno e raso o pensamento de algumas pessoas.

Galera, não precisamos criar inimigos imaginários, não precisamos nos limitar a duas hipóteses opostas, não precisamos ter ranço de quem pensa diferentemente da gente! É difícil? Sim! Mas nós somos mais (muito mais) que isso.