A Bússola das Virtudes

Espanta-me a inexistência de qualquer menção a virtudes no vocabulário corrente das pessoas. Palavras como “laboriosidade”, “temperança”, “castidade” e “magnanimidade” parecem fazer parte de um antiquário eclesiástico consumido pelas traças. Tristes características de nosso tempo! Parece que o máximo que alguém almeja ser está englobado nesta obscura expressão “gente boa”; o que ela de fato significa, permanece uma incógnita para mim – desconfio que muitos que se valem dela tampouco o sabem. “Se você provar que é valente, sincero e generoso, um dia será um menino de verdade”, promete a Fada Azul a Pinóquio. Numa única fala, ela menciona três virtudes: fortaleza (valentia), sinceridade e generosidade. Assim como Pinóquio, nós também não somos criaturas acabadas. Cabe a nós a cada ato que realizamos nos aproximar da nossa vocação fundamental, que consiste em se tornar um tipo de menino de verdade. Para tanto, precisamos passar pelo caminho da aquisição de virtudes. Segundo a melhor doutrina, virtude consiste numa disposição habitual e firme de se fazer o bem. Dessa definição, duas características saltam aos olhos: habitualidade e perseverança; ou seja, uma virtude é adquirida pela resolução de se repetir atos que buscam o bem. Em Alice no País das Maravilhas, a protagonista indaga o Gato: “– O senhor poderia me dizer, por favor, qual caminho devo tomar? – Isso depende muito para onde você quer ir, respondeu o Gato. – Não me importo muito para onde, retrucou Alice. – Então não importa o caminho que você escolha”. O excerto acima retrata a maneira como muitos vivem, andando a esmo pelos caminhos da vida. Muito diferente é o caminho da virtude, aquele que leva à porta estreita cuja travessia requer esforço. No entanto, uma vez atravessada, quantas alegrias do outro lado! Assim como um mau aluno que leva o bimestre “na flauta” e depois precisa correr atrás do prejuízo para evitar a recuperação, os que desdenham as virtudes como algo ultrapassado precisarão se desdobrar para compensar os anos desperdiçados em passatempos torpes e vis. Tradicionalmente, fortaleza, temperança, justiça e prudência são chamadas de “virtudes cardeais”. Se os pontos cardeais nos orientam para não nos perdermos no espaço físico, as virtudes cardeais constituem os pontos da bússola da vida, aquela que nos mostra o caminho desenhado zelosamente por Deus a cada um de seus filhos muito amados. Segui-lo ou rejeitá-lo é uma escolha de cada um. E você, caro leitor, o que escolhe?