O Céu encontra a Terra

Antes de fazer duas garrafas de vinho, faça uma, mas bem feita. Essa frase foi cunhada pelo Sr. Luiz Valduga, finado dono da Casa Vadulga.
Essa citação transmite a sabedoria milenar de um remédio inestimável: o trabalho; com ele, associa-se a virtude da laboriosidade, que com consigo traz a da fortaleza, magnanimidade e ordem.
Lamentavelmente, há aqueles que se conduzem na vida de acordo com a lógica do Seu Madruga: Não existe trabalho ruim; o ruim é ter que trabalhar. 
Esses chegam a invocar trechos da Escritura para justificar a carranca que fazem ao se falar de trabalho: A terra produzirá espinhos e ervas daninhas, e tu terás de comer das plantas do campo. Com o suor do teu rosto comerás o teu pão (Gn 3:19). 
Infelizmente, aqueles que o fazem limitam-se na leitura das Escrituras. Deus criou Adão do barro, colocando-o no Jardim do Éden ut operaretur et custodiret ilum (Gn 2:15), para que o trabalhasse e o guardasse. 
Com o pecado original, vieram as penas associadas ao trabalho: cansaço, dores e desânimo. Contudo, o trabalho constituiu-se desde o início a vocação do homem. O próprio Deus trabalhou; afinal, o mundo é obra de sua criação.
Diferentemente dos deuses pagãos, o Deus cristão sujou suas mãos para tirar o homem do barro e infundir nele seu sopro divino. Ele se importa tanto com o homem que o fez capaz de imprimir seu toque no mundo com pontes, prédios, monumentos, cidades etc.
Entretanto, para trabalhar como Deus, faz-se necessário trabalhar bem, não somente naquilo que é grande, mas (especialmente) naquilo que é pequeno. Ensina São Jerônimo. Não admiramos o Criador só no céu e na terra, no sol e no oceano, nos elefantes, camelos, bois, cavalos, leopardos, ursos e leões; mas também nos animais minúsculos, como a formiga, os mosquitos, as moscas, os vermes e outros animais deste jaez (...); tanto nos grandes como nos pequenos admiramos a mesma maestria. De igual modo, a alma que se dá a Deus põe nas coisas menores o mesmo fervor que nas maiores.
Oxalá ouçamos o conselho do poeta castelhano: Despacito, y buena letra: el hacer las cosas bien importa más que el hacerlas – Devagarinho, e boa letra; que fazer as coisas bem, importa mais que fazê-las.
Se o céu e terra parecem se fundir na linha do horizonte, que assim também o seja em nosso coração ao fundir a caridade do Céu com o trabalho da Terra.