Sociedade da confiança

Era Sexta-feira de manhã e resolvi adquirir uma dessas delícias da feira de Guararema: caldo de cana.
Chegando no Nogueira, percebi que somente tinha cartões comigo. Então, perguntei à moça da barraca se ela aceitava cartão como forma de pagamento. Um pouco constrangida, ela disse educadamente que não. 
Logo depois, um outro feirante que também trabalha na barraca me disse que eu poderia levar o caldo de cana e pagar na próxima semana.
Surpreso com isso, comecei a refletir sobre o tema ...
Pacta sunt servanda: acordos existem para serem cumpridos, ensina o brocardo latino. Contudo, enquanto num passado recente a própria palavra de uma pessoa bastava como garantia de cumprimento contratual, hoje as coisas são bem diferentes. 
Quem em sã consciência alugaria uma casa ou venderia um carro sem registrar pormenorizadamente os detalhes dessa venda ou aluguel no papel? Contratam-se advogados, registra-se o contrato no cartório, além de se cumprir uma série de outros trâmites legais. 
Ora, não bastaria a mera palavra das partes para assegurar o cumprimento do contrato? Talvez sim numa sociedade onde as pessoas conhecessem umas a outras e cultivassem as virtudes da lealdade e sinceridade. 
Com o crescimento das cidades, os laços comerciais passaram a prevalecer em detrimento dos laços familiares. Outrora, dizia-se: “Pode confiar no Carlos, ele é o filho do Sr. Caetano, aquele que pescava com seu avô e pagava direitinho”, ou “Pode deixar que eu olho seu filho Ana, sua mãe cuidou dos meus filhos quando eles eram menores”. 
Nessas frases estão implícitas as virtudes da lealdade, sinceridade e os laços de reciprocidade. Para tanto, é necessário que as pessoas tenham vínculos diretos ou indiretos entre si, sejam eles de parentesco ou amizade.
Entretanto, é concebível que eu entre num Mc Donald’s na Av. Paulista e o vendedor me autorize a pagar pelo meu Big Mac semana que vem? Provavelmente, não.
Quais são os laços que unem um vendedor de lanches na Paulista a seus clientes? Existem vínculos diretos ou indiretos de ordem familiar ou de amizade? As duas pessoas se encontram ou veem um ao outro com frequência? Resultado: o que garante o cumprimento desse contrato é muito mais a sanção administrativa e legal cominada em caso de descumprimento do que o próprio cultivo da virtude entre partes contratantes.
Sendo assim, pagar por um caldo de cana na semana seguinte à data de compra não é um sinal de retrocesso, mas sim de civilização!