O apagar de todas as luzes

- Marta, Marta, tu te preocupas e te inquietas com muitas coisas quando uma só é necessária (...) (Lc 10,41).
Essas palavras de Cristo reverberaram em minha mente no último Domingo, quando o Centro da cidade ficou às escuras devido à queda de energia.
Imediatamente, minha reação foi de desânimo e angústia. Ficar sem luz seria inconveniente. Entretanto, gradativamente, cresceu dentro de mim uma paz que tomou conta do meu ser: passei a respirar mais lentamente, sentir o vento batendo contra meu rosto e perceber o brilho da Lua e das estrelas. Além disso, interagi melhor com as pessoas ao meu redor e deixei de lado meu celular. É notável o impacto do domínio que a luz teve sobre o homem. Até meados do século XIX, a maioria das pessoas dormiam cedo porque não havia muito o que fazer após o anoitecer. A ausência de muitas opções para divertimento era um convite para o exercício da imaginação nos momentos de lazer e uma oportunidade singular de se praticar uma virtude esquecida: a simplicidade. Com a luz, não somente isso mudou, mas o homem passou a estar num estado de alerta contínuo: a luz excita nossos sentidos mantendo-os despertos e possibilitou que momentos outrora de descanso tornassem-se ocasiões de lazer ou trabalho. 
O domínio da luz possibilitou avanços tecnológicos que beneficiaram várias pessoas materialmente, desde de carros até smartphones. Contudo, o progresso tem uma lei inexorável: a satisfação de uma necessidade cria um novo problema. Exemplo: com a internet, cria-se o problema da inclusão digital àqueles sem acesso. Num mundo sem internet, o problema da inclusão digital jamais surgiria. Ou seja, uma sociedade perfeita é impossível: toda solução para um problema cria um novo. Para atenuar esse paradoxo do progresso, talvez um dos remédios seja algo sabido por todas as tradições espirituais sérias: desprendimento.
Como proceder então? Comece pelo seguinte exercício: fique um dia sem usar Whatsapp. Se pensa que isso é impossível, sinal de que você precisa disso urgentemente. Qual foi minha reação quando a luz retornou no Domingo? Fiquei um pouco chateado, pois estava curtindo a escuridão e o silêncio. Parece-me que então entendi a frase que completa a de cima: Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada (Lc 10,42).
Qual é a melhor parte que você está perdendo por estar entretido com tantas outras?