América

16h, 5 de agosto: chego na estação Wellington em Boston. Já que participaria de um curso a partir do dia 6, precisava levar minha bagagem do hotel em que estava para o dormitório onde ficaria. Problema: não tinha como ir ao hotel; sem acesso a internet, ele ficava longe e não havia nenhum taxi próximo.Enquanto refletia, um carro de aplicativo se aproximava. Bati em sua janela e disse ao motorista: – Gostaria de que me levasse a dois endereços. $25,00 pela corrida? Ele me olhou e perguntou: – $30,00?  Respondi: – OK. Subi no carro e começamos a conversar. Descobri que seu nome era Jim e que nascera em Uganda; tinha 30 anos e morava de aluguel. Então, perguntei-lhe: - Parece que se você trabalhar duro e seguir as leis, consegue-se viver bem nos EUA. Ele imediatamente respondeu: – É isso aí! Deixei Uganda porque não se tem confiança lá: nas leis, no governo etc. A convicção na resposta do Jim fez-me pensar sobre isto: confiança. A confiança é a base da sociedade. Sem ela, não há prosperidade. Vivenciamos no Brasil uma crise de confiança em nossas relações e instituições. A desconfiança é uma marca da psicologia social brasileira. Tanto é assim que jamais se presume que alguém esteja de boa-fé. Curioso Machado de Assis ter a mentira como tema de suas obras. Afinal, uma das consequências da mentira é a desconfiança e esta incentiva aquela reciprocamente. Mark Manson escreveu uma carta ao Brasil propondo a seguinte reflexão sobre o tema: Você está de carona no carro de um amigo tarde. O papo está bom e ele não está prestando atenção quando arranca o retrovisor de um carro. Antes que alguém veja, ele acelera e vai embora. No dia seguinte, você ouve um colega de trabalho dizendo que deixou o carro estacionado na rua na noite anterior e amanheceu sem o retrovisor. Você descobre que é o mesmo carro que seu brother bateu “sem querer”. O que você faz? A)Fica quieto e finge que não sabe de nada para proteger o amigo?; B)Diz para o cara que sente muito e força o seu amigo a assumir a responsabilidade pelo erro? Eu acredito que a maioria dos brasileiros escolheria a alternativa A. Eu também acredito que a maioria dos gringos escolheria a alternativa B. Quanto ao Jim, ele levou-me em segurança. Tenho confiança de que está bem e prosperando. Eu poderia ter essa confiança se ele estivesse em Uganda ou no Brasil? Quanto à pergunta, qual seria sua resposta? Se for a A, você já conhece a primeira pessoa de quem deve desconfiar.