A Mediocridade da Vida Aburguesada

‘Se tu queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me.’ Quando ouviu isso, o jovem foi embora cheio de tristeza,  porque era muito rico (Mt 19,21-22).
A tristeza do jovem rico permanece presente em nossa sociedade e se cristalizou numa atitude chamada de vida aburguesada. A burguesia surgiu na Idade Média diferenciando-se tanto dos camponeses como dos nobres. Beneficiando-se dos lucros do comércio, ela emergiu e conquistou prestígio econômico e social frente às demais classes. Com ela, surgiu um novo tipo de mentalidade que penetrou por todas as camadas sociais centrada no seguinte aspecto: aumentar o seu nível de conforto material. Com o declínio das tradições, da religião e do ensino das obras clássicas, a mentalidade burguesa se tornou a meta de vida de muitas pessoas com o passar dos séculos. Nos dias atuais, como se reconhece um burguês? Eis aqui algumas dicas:
(1) Um burguês é uma pessoa que vê como o único fim da sua existência a sua própria felicidade alcançada pelo acúmulo de bens materiais, prestígio social e profissional;
(2)O burguês vive num eterno ciclo de trabalhar para tirar férias;
(3)O consumismo desenfreado é uma marca na vida de todo burguês (preferencialmente, as marcas da moda);
(4) O repertório de conversas de um burguês é extremamente limitado, restringindo-se a Netflix, trabalho e futebol;
(5)O burguês é adepto da filantropia de final de ano para postar nas redes sociais (leia-se: ir ao orfanato uma vez no ano para colocar no Facebook).
O personagem Ivan Ilitch do livro A Morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói, personifica esse tipo descrito acima. Sabendo de sua morte eminente, ele se depara com o vazio de sua existência, pautada unicamente pelo prestígio social de seus pares e pelo sucesso profissional.
A busca do aumento de nível de conforto ininterrupto tem duas consequências: tédio e desespero. Afinal, um emprego estável, uma aposentadoria garantida e um casamento por vínculo de conveniência são incapazes de saciar o desejo pelo infinito que pulsa no âmago de cada homem.  A prova disso?  Quantos jovens de famílias abastadas vocês conhecem que se perderam da vida apesar de todas as circunstâncias exteriores favoráveis? Ao invés de prazer, será que eles não precisavam de um desafio? Em resposta ao apego às riquezas, sigamos o desapego de Pedro: Nós deixamos tudo para te seguir (Mt 19,27).