Lição de um Economista

Passeando por um bairro de Cambridge, lembrei-me de algo que me cativou ao assistir a filmes americanos: a ausência de cercas separando as casas. Aprendi nas aulas de economia que boas cercas fazem bons vizinhos. Portanto, a ausência de cercas geraria discórdia, mas aquela vizinhança era adorável. Como explicar? A Nova Inglaterra foi colonizada com base no minifúndio. Assim, ocupou-se de forma descentralizada o território e os custos de ocupação recaíram sobre os primeiros colonos. E quem eram eles? Famílias protestantes de classe média que se enxergavam como povo escolhido, tendo Oceano Atlântico como deserto e o Novo Mundo como Terra Prometida; sua a relação com Deus era como  do peixe com água. Brownson escreveu que há três maneiras do homem interagir com Deus:  religião,  política e  economia. Na primeira, o homem interage diretamente com Ele; nas demais, ele  faz indiretamente por meio da sociedade e da natureza.  Deus os abençoou, e lhes disse: "Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra" (Gn 1,28). Deus, outorgando aos homens poder sobre a natureza, fez deles partícipes de Sua obra como administradores. E o que possibilitaria administrá-la? O direito de propriedade. A propriedade então revestiu-se de caráter sagrado aos americanos, inspirando respeito. Se algo é interiormente respeitado, para que protegê-lo exteriormente? A ausência de cercas não seria um indício de que o respeito é tamanho de proteção exterior? Perdoem-me os economistas, mas afirmo: a ausência de cercas é sinal de bons vizinhos. E quanto à propriedade no Brasil? A abundância de portões, arames farpados e cercas elétricas dizem tudo: compensa-se exteriormente o respeito que falta interiormente. Afinal, o país foi marcado na ocupação do território por grilagem, coronelismo, sendo a propriedade vista como meio de exclusão, não de integração. Os EUA entraram para a História como o país da classe média, como ensinou Aristóteles: convém que a maioria das pessoas não seja rica nem pobre, mas que usufrua de um nível médio de riqueza. Parece então haver relação entre prosperidade econômica e direito de propriedade. Podemos dizer com isso que somos civilizados?