Apeirokalia

A palavra grega para transmitir a incapacidade de apreciar a beleza é “apeirokalia”, enfermidade sistêmica que atinge muitas pessoas na contemporaneidade. Prova disso é aquela máxima costumeira “Gosto não se discute”. Essas e outras expressões que estão na boca de todos caracterizam uma profunda indiferença e apatia diante da possibilidade de que existem padrões universais observáveis de verdade, bondade e beleza. Se essa atitude está equivocada, o que seria então o “belo”? Pulchrum est id quod visum placet – O belo é aquilo que agrada a visão, ensinou Santo Tomás de Aquino. Percebe-se que está definição abarca dois elementos constitutivos: visão ou conhecimento (visum) e deleite ou alegria (placet). A visão é um sentido representado pelo olho. Entretanto, o doutor medieval alude à visão num sentido mais profundo, espiritual, não meramente físico. Afinal, há animais com visão aguçada, mas eles são incapazes de captar a realidade do belo. Com isso, conclui-se que o conhecimento do belo está ligado a uma potência da alma, a qual se chama consciência. Por óbvio, reconhece-se o belo unicamente quando se tem consciência de que se está diante dele. Além disso, o conceito de “belo” também engloba o deleite ou alegria. O belo não é como um quebra-cabeças cujas peças são atiradas ao ar e caem randomicamente no chão; ele se parece mais com uma proporção construída matematicamente. Explico-me. Segundo Galileu “A matemática é o alfabeto que Deus utilizou para escrever o universo”. Isso se revela nas sequências e proporções descobertas por diferentes povos, como a razão áurea, as formas geométricas, a sequência de Fibonacci etc. Ou seja, o deleite e a alegria são consequência do uso ordenado de formas, sequências e proporções na música, pintura, linguagem etc. Alguém alegaria que um grupo qualquer seria capaz de compor uma sinfonia agradável aos ouvidos? Como disse Thomas Edison “Talento é 1% inspiração e 99% transpiração”. Se ordem e disciplina são características necessárias para repetir padrões, não é de se esperar que tais padrões sejam justamente imprescindíveis para uma obra despertar o senso de beleza no homem? A beleza está nos olhos de quem vê, repete-se com frequência. No entanto, a beleza não está nos olhos, mas sim no objeto que se aprecia. Privado de qualquer beleza, o objeto talvez sirva como um passatempo agradável, mas jamais tocará no fundo da alma de quem o contempla. Para os gregos, Afrodite era a deusa da beleza; lembrem-se: o nome dela não é Jennifer.