A Túnica Sem Costura

“A vaidade deve ser evitada; mas todo homem deve se vestir bem, segundo seu posto, a fim de que sua esposa possa amá-lo mais facilmente.” Atribui-se a frase acima ao rei São Luís; nela, transmite-se a importância de algo negligenciado na sociedade contemporânea: vestir-se bem. Segundo um teólogo medieval, a vestimenta apresenta quatro finalidades: (i) física: proteger contra o frio; (ii) moral: cobrir a nudez; (iii) estética: manter a boa aparência; (iv) social: conservar a dignidade do estado de cada um. Enquanto a primeira finalidade ainda é reconhecida, as demais parecem ter caído em descaso. Afinal, especialmente no verão de um país tropical, imperam as roupas curtas, colantes e, não raramente, desprovidas de qualquer beleza. Qual é o problema nisso? Primeiramente, o sentido de se cobrir algo está relacionado à dignidade do conteúdo que se cobre, como no caso de um presente. Assim, o tipo de roupa que se escolhe para vestir reflete a (in)dignidade do corpo de cada pessoa. Mister pontuar que se vestir com dignidade e elegância independe da condição social de alguém ou do seus deveres de estado. Prova disso são os exemplos deixados por São Francisco e Santo Tomás de Aquino: ambos membros de ordens mendicantes cuja simplicidade na vestimenta jamais de confundiu com desleixo. Haveria exemplo mais emblemático do que o de Jesus? Depois, pegaram a túnica. Mas descobriram que ela fora confeccionada sem costura. Isto é, fora tecida de alto a baixo como uma única peça de tecido, sem emenda. Os soldados disseram entre si: - Não vamos rasgá-la, mas sim sorteá-la para ver com quem ela ficará. Esse trecho revela-nos uma realidade muitas vezes ignorada: Jesus vestia-se bem! Afinal, por que os centuriões sorteariam a sua túnica entre si? Se Jesus, carpinteiro humildade de uma cidade pequeniníssima da Galileia, vestia-se bem, por que nós não nos vestiríamos? Vestir-se bem é algo desnecessário, assim como a amizade, o amor e as brincadeiras. Entretanto, apesar de supérfluos, alguém escolheria viver sem ter amigos, amores e brincadeiras? Beleza não se põe na mesa, muitos dizem. Entretanto, nem só de pão vive o homem: se o pão é alimento para o corpo, a beleza o é para a alma.