A Beleza Salvará o Mundo

- Nossa, aqui tem muito verde!
Ouvi isso enquanto conversava com uma cliente em 2014 na cidade de Nova Iorque. Tratava-se de uma americana que morava no Brasil e, ao retornar aos EUA, levou consigo sua empregada doméstica brasileira, que proferiu a frase acima.
Soou-me estranho uma pessoa que vivia num país tropical como o Brasil espantar-se com a exuberância da natureza nos EUA.Após refletir bastante, entendi seu espanto; afinal, com raras exceções, as cidades brasileiras são incapazes de integrar harmonicamente a natureza ao espaço urbana; prova disso a competição por espaço entre galhos e linhas elétricas, raízes e calçadas; isso quando não impera a monotonia do tom cinza, como em inúmeras regiões de São Paulo, Guarulhos e Osasco.
Mais profundamente, esse espanto da empregada doméstica revela como os brasileiros estão desacostumados com um algo essencial ao homem: a beleza. Afinal, é notável que impera um caos estético nas cidades do país.
Andando pela Av. Brigadeiro Faria Lima recentemente, parei para observar algumas fotos que mostravam a mudança da região do Itaim Bibi últimos 50 anos: aquela que era uma região bucólica e calma, tornou-se uma área altamente urbanizada com inúmeros prédios espelhados e redes de franquia americanas.
Essa mudança não é isolada em São Paulo: pensemos nos casarões na região da Avenida Paulista e da Avenida Angélica destruídos para dar lugar a outros edifícios. Tais edifícios que, em geral, abandonaram qualquer padrão estético local em prol de uma suposta eficiência que em nada se preocupava com o belo e harmônico.  
Resultado: um espaço urbano caótico, feio e fétido. Quem já pegou o trem em São Paulo na Linha Esmeralda às 18h, até a Estação Pinheiros, sentiu o odor do Rio Pinheiros e acotovelou-se para entrar no vagão, entende isso.
Mais grave que o aspecto exterior do problema é o interior: será que esse caos estético externo não é um reflexo de um caos interno na alma de cada brasileiro incapaz de identificar o bom, belo e verdadeiro e, consequentemente, de interagir de maneira harmônica com o meio em que se encontra?
Se “A beleza salvará o mundo”, como ensinou Dostoevsky, a feiura certamente o destruirá.
Andando pela Faria Lima e vendo o que aquela região era e o que se tornou, com seus carros, prédios espelhados e lojas de franquias, compreendi aquela frase de T.S Eliot: “Estamos destruindo nossas construções milenares onde os bárbaros nômades do futuro ocuparão com suas caravanas mecanizadas”.