Sobre jardins e borboletas

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Estreio minha coluna sobre sustentabilidade com uma proposta diferente. Diante do momento mundial que vivemos o tema sustentabilidade adquire novos contornos. Para sermos sustentáveis antes de mais nada precisamos assegurar a sanidade mental. E a melhor forma de sermos “sãos” é preservarmos nossos sonhos e ESPERANÇA.

Assim, compartilho com vocês um de meus escritos sobre esperança:

Quando crianças, brincamos em jardins... E o próprio mundo muitas vezes nos parece um gigantesco jardim, onde nos encantamos com um universo desconhecido no quintal de casa. Somos puros, e a alegria simples de viver nos inebria. Sorrimos, gargalhamos e sonhamos sonhos de algodão doce. Quão simples e terna é a vida.

As crianças crescem. E os jardins encolhem. E os mistérios de nossos quintais desaparecem. E o quintal se converte em prisão. E é nele que, consciente ou inconscientemente enterramos algo sagrado e precioso: nossos sonhos. É no quintal de casa que enterramos nossos mais caros sonhos. E o enterrar de sonhos no quintal que ontem era o nosso grande e fascinante desconhecido é por demais doloroso. É como se a criança sorridente de nossa infância olhasse com seus olhos de esperança, e nos perguntasse ansiosa: "Eu estou aqui. Vamos brincar?"

Mas não queremos ouvir seus apelos. Somos por demais adultos e graves para brincar de descobrir mistérios no quintal de casa...

Sentado, grave e silencioso, vejo-me alquebrado, buscando um ultimo resquício que me fizesse relembrar, sentir o doce sabor da alegria inocente do sonhar sem amarras.

"E o Verbo se fez carne e habitou entre nós". E o milagre aconteceu pelas asas de uma borboleta. Silenciosa, percorreu com sua leve graciosidade o pesado ambiente de minhas sombrias reflexões. Tamanha graciosidade e beleza não puderam passar despercebidas. Seu vôo era livre e harmônico. Uma valsa. Vi nas asas flutuantes de uma borboleta uma valsa executada em celebração a vida e todos os seus mistérios. Sonhos semeados em um quintal.

Então me lembrei.

Como que emergindo por entre uma bruma matinal, contemplei, depois de muitos anos, meu quintal com outros olhos. E vi que nele havia um belo e florido jardim. E foi por ele que a borboleta se aproximou e pousou serenamente a leveza de suas asas em minhas flores. E quantas flores descobri escondidas nesse jardim!!! Permiti-me então deitar em meu jardim e contemplar cores, fragrâncias e texturas mil. Deslizando as mãos pela terra fofa e úmida meus dedos cansados encontraram o que há muito não via: na terra de meu jardim, escondido entre as flores que já não percebia, encontrei meus sonhos, delicadamente embrulhados pela alegria de viver.