Carruagens de fogo

Creio que Deus me fez para um propósito, mas ele também me fez veloz, e, quando corro, sinto que agrado a Deus. Essa frase foi pronunciada pelo intérprete de Eric Lidell – corredor inglês martirizado na China – no filme Carruagens de Fogo (1981). Nela, ele captura a importância de algo deveras negligenciado na nossa relação com Deus: nosso corpo. Liberdade absoluta leva à tirania absoluta, escreveu Dostoevsky. Esse adágio político também serve quando aplicado a nosso corpo. Todos que já educaram alguma criança sabem a importância de se dizer “não”. De outra forma, qual é o resultado? Acaba-se com uma criança mimada, e todos sabem o quanto uma criança assim desestrutura o ambiente familiar. Igualmente, um corpo que recebe tudo aquilo que pede se torna como uma criança mimada: quanto mais recebe, mais quer. Qual é o resultado disso? Cedendo sempre àquilo que nosso corpo pede, ele se torna mais preguiçoso, lento e inclinado ao descanso do que ao trabalho. Qual é o remédio para isso? A educação dos nossos sentidos por meio da moderação dos prazeres. Em se tratando de moderação, o sono e o alimento oferecem oportunidades únicas para exercitá-la. Quanto à hora de acordar, oxalá se diariamente cumpríssemos com o minuto heroico: levantar da cama no mesmo minuto em que despertamos. Com isso, evitamos atrasos no cumprimento dos nossos deveres matinais e chutamos a preguiça para longe! Com relação ao alimento, a máxima que impera é a seguinte: comer sempre um pouquinho mais do que gosto menos e um pouquinho menos do que gosto mais. Por mais delicioso que seja o chocolate, frutas, fibras, legumes e proteína são o que garantem que teremos energia para terminar o dia bem. E a atividade física? A palavra ascetismo significa treinamento nas tradições espirituais. Ora, haverá melhor forma de treinar nosso corpo a ser ordenado e estar à nossa disposição do que por meio da atividade física constante e moderada? Eis aí a chave para o ascetismo moderno! Com isso, nosso corpo será nosso irmão burro, como o chamava São Francisco de Assis. O burro é um animal perseverante, resistente e leal, mas somente se for bem conduzido pelo seu dono. Então, que nosso corpo seja nosso irmão burro: companheiro leal de todas as viagens, a quem saudamos com um tapinha nas costas e uma cenoura como recompensa pelo trabalho.