O Paradoxo da (In)tolerância

A palavra “tolerância” está na boca de todos; poucos ousam rejeitá-la como fundamento para o convívio social harmônico e frutífero. Entretanto, a minoria entende de fato seu significado. Segundo Eric Voegelin, um fundamentalista é uma pessoa que acredita em palavras e frases independentemente do que elas significam. Percebe-se então que muitos dos que defendem a “tolerância” o fazem como fundamentalistas: desconhecendo o conteúdo daquilo que advogam. O filósofo Karl Popper constatou o seguinte sobre a tolerância: se houver tolerância sem limites numa sociedade, os discursos intolerantes podem ganhar força a ponto de extirpar a própria tolerância.
Diante disso, deve-se fazer uma pergunta crucial em se tratando de tolerância: tolerar o quê? Pedófilos, estelionatários, assassinos, bígamos? É provável que ninguém defenda isso. Contudo, essa é a consequência de ampliar o âmbito da tolerância além de determinados limites. Onde tudo é tolerado, qualquer coisa serve. Será que já não vivemos numa época assim? Os discursos mais virulentos, as músicas com as letras mais vis e desprezíveis e as telenovelas mais nojentas arrogam direito de tratamento de elevada produção cultural e artística.
Por outro lado, outras manifestações são menos toleradas, como aquele caso que ocorreu na Universidade de Califórnia: Milo Yiannopoulos – um conservador homossexual defensor de Donald Trump – cancelou sua palestra na Universidade da Califórnia diante dos protestos violentos por parte de alguns estudantes incomodados com seu posicionamento político-ideológico. Na época em que vivemos, estamos cercados de fundamentalistas. Por isso, ninguém sabe ao certo como se portar, nem o que é tolerância, fascismo, diálogo etc.
Em se tratando de lidar com intolerância, a melhor lição que tive não veio da universidade, mas do Sr. Jack Reagan (pai de Ronald Reagan). Certa vez, Jack parou num hotel de beira de estrada nos EUA para se proteger de uma nevasca. Tocou a campainha e logo foi recepcionado pelo funcionário. Enquanto conversavam, o funcionário do hotel disse ao Sr. Reagan:
– O senhor gostará muito do nosso hotel. Nós não aceitamos judeus aqui!
Imediatamente, Jack pegou suas malas e disse ao funcionário do hotel:
– Que bom que você comentou isso comigo, pois eu sou católico. Se vocês não aceitam judeus, isso quer dizer que vocês em breve também não me aceitarão. Boa noite.
O Sr. Reagan dormiu aquela noite em seu carro no meio da nevasca.