Editorial
O Estado indeniza, a Justiça decide e a conta retorna ao contribuinte
A tragédia é individual, mas o prejuízo é sempre coletivo

Em mais um capítulo da novela interminável da segurança pública brasileira, a recente decisão que obriga o Estado a indenizar a família de um assaltante morto durante uma abordagem policial reacende um velho enredo: quando o Estado falha, quem paga é sempre quem ficou em casa trabalhando e tentando sobreviver à rotina tributária.
A tragédia é real, a dor da família é legítima, e o abuso, quando ocorre, precisa ser corrigido. Mas a forma como o sistema responde diz muito sobre as prioridades nacionais. Em vez de responsabilizar diretamente quem errou dentro da estrutura estatal, o custo é transferido para o contribuinte, como se ele fosse o verdadeiro protagonista daquele momento crítico.
Não importa se a pessoa estava no ônibus, no trabalho ou cuidando da vida: a conta chega, silenciosa e inegociável. O que impressiona é que o Estado, sempre tão lento para proteger, tão tímido para prevenir e tão confuso para punir, torna-se incrivelmente ágil quando se trata de abrir a carteira alheia. A justificativa é sempre a mesma: responsabilidade objetiva. Bonito no papel, confortável nos gabinetes, doloroso no bolso de quem nada teve a ver com a ação policial.
A decisão judicial afirma que houve abuso, e se houve, que se corrija. Mas por que nunca vemos um esforço institucional real para assegurar que o erro seja reparado por quem efetivamente o cometeu, e não pelo conjunto inteiro da população? Enquanto isso, segue o ciclo típico brasileiro: o crime gera insegurança, a insegurança pressiona o Estado, o Estado erra, a Justiça reage, e o contribuinte paga. É um roteiro previsível demais para um país que insiste em acreditar que mudanças virão sem enfrentar as raízes do problema.
Talvez um dia o governo descubra que proteger o cidadão significa, também, proteger o próprio cidadão do peso crescente de decisões que ignoram o impacto sobre a sociedade trabalhadora. Até lá, resta ao povo assistir, com ironia cansada, ao espetáculo de um Estado que promete segurança, falha em entregá-la e ainda cobra ingresso para o show. Assim seguimos…













